quinta-feira, 14 de setembro de 2023

A palavra crua e cortês

 

Talvez eu seja um “náufrago de existência”, assim como era o filósofo de Machado. Náufrago de existência pelo menos é uma forma poética, trágica e quem sabe estética, que talvez agrade o leitor. Acho que cabe bem numa peça literária. E já que é tradição dos autores supostamente canônicos se apoiarem na mitologia grega, seja lá qual for o motivo disso, quem sabe eu sou um Ulisses, tentando voltar para a minha Ítaca simbólica, mas que naufraga no caminho, quem sabe eu seja mais um Ulisses à moda de Joyce, um zé ninguém na minha odisséia diária. Mas tanto faz, eu nunca li o Ulisses de Joyce, nem sei se pretendo.  Criar uma mitologia com a minha vida pelo menos é uma forma de tentar dar ordem ao caos. Talvez seja um eufemismo, uma forma de adoçar as vicissitudes. O que é isso senão uma sublimação, uma romantização? Delirar sobre o mais banal, sobre a matéria bruta. Mas no meu caso não seria um delírio sobre o meu delírio? Uma história que não parece ter um final cômico, feliz, mas também não tem nem um final trágico. O leitor não me leve a mal, acho toda essa poesia muito bonita, mas a poesia é muito mais inebriante quando encara de frente a realidade.  “ah! nesse dia terás o maior prazer na vida, porque não há vinho que embriague como a verdade”.  “Numa palavra, odeio todos os deuses”. Não quero ser escravo dos deuses. "Existe quem tente reinar, vendo que irá despertar, dentro do sonho da morte". Esse tipo de sonho eu não quero, pois é assumir que fomos derrotados por nós mesmos, que fomos vencidos pela nossa própria mentira, como se a única coisa verdadeira no mundo fosse a mentira. Assim não é preciso entender, não é preciso explicar, não é preciso mais nada, nada precisa fazer sentido, e então se nada faz sentido, nem os sonhos fazem sentido, e assim nem os sonhos são sonhos. Se as flores de plástico não morrem, é porque elas já nasceram mortas. Saudade hipócrita dos poemas  do amor doméstico, pois naquele tempo as incertezas e as impressões rudes já nos ultrajavam, mas só agora percebi que era preciso fugir de casa para entender a verdade. Assim, quero poder, nos meus sonhos, sonhar com a realidade, sonhar com a verdade. E quando estiver no plano terreno, quero sonhar com meus sonhos. Não quero me esconder de mim mesmo. Os sonhos são mais bonitos quando atravessam o seu próprio oposto, quando aceitam a derrota para esse oposto, que nada mais é que a mais bruta e cruel realidade, e é inútil odia-la, porque odia-la so confirma ainda mais a existência e a preponderância dessa força bruta. Odia-la só dá mais razão para a realidade. Pobre ilusão, que se ilude da sua ilusão, que finge que não é fingimento, que não aceita ser filha da matéria. A arte só alcança a sua verdade ao se encontrar a si mesma no dilaceramento absoluto. Se demorar na sua própria negação, se conservar toda vez que tem a oportunidade de cair na sua própria morte e se tornar um outro completamente diferente, sustentar a própria morte, querer a própria morte, essa morte que é a transgressão infinita.  A verdade é que do conflito dos opostos, sempre irrompe algo novo, desde que o nada se encontrou no tudo de si mesmo. Será que as palavras realmente são belas, ou é só vaidade, egoísmo? A palavra crua e cortês, bárbara e gentil, desigual e combinada, a lei da história, é isso que eu busco. Só o Real tem imaginação o suficiente para não existir. Só assim é possível criar regras sobre como aplicar as regras. Espero que eu não esteja sendo muito metafísico para os meus colegas, para mim a metafísica também é uma forma de fugir da realidade. “Viver sem ilusões, sem se tornar um desiludido”. Apenas peço licença poética para minha breve tentativa de esboçar, de ensaiar um ato de criação, esse ato catastrófico do parto que ocorre como resultado de um longo período de gestação e desenvolvimento do feto. “Sou o poeta de um mundo caduco. Também cantarei o mundo futuro”.